Alguém passou semanas adiando a decisão de procurar ajuda, criou coragem, pesquisou e abriu o seu site. A primeira frase da página informa que o atendimento se dá na abordagem psicanalítica de orientação lacaniana, ou que o trabalho parte da escuta clínica fenomenológico existencial, ou que a condução é pautada na análise funcional do comportamento. A pessoa lê duas vezes, não entende, fecha a aba e volta para a lista do Google. Isso não é falta de competência sua. É um problema de tradução, e ele custa agendamento todo mês.

Quem procura terapia não está escolhendo teoria

Vale lembrar o estado em que essa pessoa chega até você. Ela não está comparando escolas de pensamento nem querendo saber qual autor sustenta o seu trabalho. Ela está cansada, com medo, às vezes envergonhada, e tentando responder a três perguntas bem simples: essa pessoa entende o que está acontecendo comigo, como vai ser estar numa sala com ela, e eu consigo fazer isso agora.

O nome da abordagem não responde a nenhuma das três. Pior: ele cria distância logo no primeiro contato, exatamente no momento em que a pessoa mais precisa sentir que está sendo compreendida. Termo técnico na abertura funciona como uma porta com senha, e quem não tem a senha vai embora sem avisar.

Isso não significa abandonar o rigor. A abordagem é o que organiza o seu trabalho e faz diferença real no processo. O ponto é onde e como ela aparece. Rigor teórico se demonstra pela clareza com que você explica as coisas, não pela quantidade de termos que você usa.

O teste do parente que não é da área

Existe um teste rápido e desconfortável para saber se a sua página está falando com alguém. Leia em voz alta o primeiro parágrafo para uma pessoa da sua família que não trabalha com saúde mental e pergunte o que ela entendeu. Não peça opinião sobre o texto, peça o resumo do que ela entendeu.

Se a resposta vier em forma de pergunta, o texto precisa de tradução. Se a pessoa disser algo genérico, como que você ajuda quem está mal, o texto existe mas não diz nada de específico. A resposta que você quer ouvir é concreta: ela deveria conseguir dizer para quem você trabalha, com que tipo de sofrimento e como costuma ser o processo.

Traduza em três camadas, nesta ordem

A tradução que funciona tem uma ordem, e ela é o contrário da ordem em que a gente aprende na formação. Primeiro o efeito, depois o método, e o nome por último.

A primeira camada é o que a pessoa vive. Descreva a dor com as palavras dela, não com as suas. Alguém não chega dizendo que tem sintomas de ansiedade generalizada, chega dizendo que acorda no meio da noite com o coração acelerado e uma lista na cabeça. Quando o leitor reconhece a própria vida no seu texto, ele já está ouvindo o resto.

A segunda camada é o que acontece na prática. Como são os encontros, com que frequência, o que se faz ali, o que se espera dele. Não é preciso detalhar técnica, basta tirar a sala do escuro. Uma frase que diga que vocês conversam sobre o que está pesando e vão investigando junto de onde aquilo vem já é infinitamente mais útil do que o nome da linha teórica.

A terceira camada é o nome. Aí sim, no fim do bloco, você escreve que esse jeito de trabalhar vem de tal abordagem. Nesse ponto o termo deixa de ser barreira e vira informação, porque o leitor já entendeu o que ele significa na prática.

O termo técnico não é o problema. O problema é ele chegar antes de qualquer coisa que a pessoa consiga reconhecer.

Exemplos de tradução que você pode adaptar hoje

Alguns pares para dar o tom. Não são fórmulas, são o mesmo movimento aplicado a expressões que aparecem em quase toda página da área.

Repare no que acontece em todos eles: o verbo muda de posição. Sai a descrição do que você faz enquanto profissional e entra a descrição do que acontece entre vocês. Essa troca de sujeito é quase toda a mágica.

Onde o nome da abordagem continua valendo

Traduzir não é esconder. Existem lugares em que o termo técnico trabalha a seu favor, e apagá-los seria jogar fora busca qualificada.

O primeiro é a busca. Uma parte pequena mas relevante do público pesquisa exatamente pelo nome da abordagem, geralmente porque já fez terapia antes, porque leu sobre o assunto ou porque foi indicado por alguém. Essa pessoa digita o nome da linha somado à cidade, e você quer aparecer nesse resultado. Por isso o termo deve constar no texto da página, no título de alguma seção e nos conteúdos do blog, só que acompanhado da explicação em linguagem comum.

O segundo é a credibilidade. Formação, supervisão, instituição e anos de prática pertencem à página, e são exatamente o tipo de informação que sustenta a confiança de quem está decidindo. O lugar delas é mais abaixo, numa seção própria, depois que o leitor já entendeu com o que você trabalha.

O terceiro é o público profissional. Se você também atende colegas, oferece supervisão ou dá aula, esse material pode e deve ser técnico. Só não pode disputar espaço com a página que fala com quem está sofrendo, porque são duas conversas diferentes com duas pessoas diferentes.

Como isso muda o site, o Instagram e a primeira conversa

No site, a hierarquia costuma ser o conserto principal. O topo fala da dor e de quem você atende, o meio explica como funciona, a parte de baixo apresenta formação e abordagem, e o contato aparece repetido ao longo da página. Quase nenhuma página precisa de mais texto, precisa de outra ordem.

No Instagram, o teste é a bio. Se ela é composta apenas por sigla do conselho, nome de abordagem e emoji, ela está informando e não convidando. Uma linha dizendo com quem você trabalha e o que você ajuda a resolver rende muito mais, e ainda faz o link do site ser clicado.

Na primeira conversa por WhatsApp, o cuidado é o mesmo. Quando alguém pergunta como funciona o seu trabalho, responder com o nome da linha teórica encerra o assunto. Responder com uma frase sobre o que acontece nos encontros mantém a conversa viva e costuma terminar com a pessoa perguntando sobre horário, que é onde você quer chegar.

Quatro frases que resolvem a sua página

Se você tiver dez minutos hoje, escreva estas quatro frases e coloque no topo, antes de qualquer outra coisa. Uma frase sobre quem você atende, com nome concreto de público. Uma frase sobre a dor mais comum dessas pessoas, escrita como elas falariam. Uma frase sobre como é o processo, sem técnica. E uma frase convidando para a sessão de acolhimento, dizendo o que acontece nela.

Depois disso, o resto da página pode conter tudo o que você quiser, inclusive teoria. O leitor já vai estar dentro.

Os dois exageros que estragam a tradução

O primeiro exagero é virar genérico. Tirar o jargão e colocar frases de efeito sobre autoconhecimento e bem-estar deixa o texto bonito e vazio, igual ao de milhares de outros profissionais. Traduzir é ficar mais específico, não menos.

O segundo exagero é prometer. Na pressa de ser claro, é fácil escrever que o processo resolve, cura ou garante algum resultado, o que é vedado pelo código de ética e, além disso, afasta o leitor experiente, que desconfia de promessa. Clareza e prudência convivem bem: descrever o caminho com honestidade já diferencia você da maioria.

A sua abordagem é o que dá consistência ao seu trabalho, e ela merece ser compreendida, não apenas anunciada. Quando o texto que representa você faz essa ponte, a pessoa certa reconhece o que está lendo e dá o próximo passo. Construir essa ponte, do site à estratégia de conteúdo, é o que a Terapeuta Multimídia faz com quem cuida de gente, com 20 anos no mercado digital.

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